Verdade de hoje e ontem

Deixei os vícios me levarem
Que me corroessem o máximo e o mínimo
Sem rodar meus olhos e minha cabeça
Viciei-me em acordar tarde
Viciei-me em não dividir caminhos

Olhei pouco
Segui em frente
E como se a vida fosse uma linha reta
Perdi-me em não gozo

Por amor somente quis uma vez
Viciei-me em café, e do café não soltei
Num liga e desliga todos os dias
Dos meus rituais não me tornei ateu

E quando me virem por ai
Desconexo e sem intenção
Buscando resgatar meus olhos, muitos dirão:
- Ei amigo!
Ai, essa vida que passou por mim
Queria tempo pra te dizer algo amigo
Mas quando me vou
Já fui.

Auriverde

- O que sois?
- Isso.
- Isto?
- Isso, só isso.

Nós não somos
Os bichos já são, pois
Nós nos tornamos
E nesse tornar-se
Nós já somos.

Beije sua vida de língua.
Chupe, e dê uma mordida!

Carta ao poeta

Pra escrever poemas espero latência
De sentimento sem terra que vem, e ocupa
Não pergunta, se preparado estou

Ando meio sem jeito
Que nas pressas desses baculejos
Ando até armado de flor

Não há entidade
Não, a entidade
Quem deveras saber
O número de decodificações que uso?
Pra juntar e esquartejar?
Sangrar e mediocrizar?
Te ousar a dizer: Para, isto não é
Pare o teu uso

Por publicações semanais e de vários Nobels
Por presentes escritos com amor
Dado por ti, a ti mesmo
Seja destinatário de si, por momentos.

Ponteando

Olhe este ponto.
Nada mais e pronto
Pronto pra te finalizar
Descansar tua ideia
Que não se apropria da calmaria do silêncio do ponto.

Ponto que finda e começa
Nega sempre a pressa
Mas ignorado pelos não entendidos
Ao falar um momento contido
Passa, tropeça e sempre desconversa

Para onde vais com tanta pressa?
Que não usa esse ponto pra te acalmar?
Olhe este ponto.
Use-o e pronto

Flor de Cerejeira

Enfim se encolhe
Um riso na areia, não seca
Com sentimento de terra molhada
Brota-se mais um sonho

Primaveras verdes
Tu, árvore cerejeira
Daquelas de invadir pupilas
E de desbotar perfumes
Permita-se, e abrace tua seiva

De passarinho e vento
Teu pólen se abrigou em meu íntimo
Fecundou-me
Hoje dou-te bom dia,
E amo a primavera por isso, meu amor
Por teu momento nascido
Por ter se feito flor.

Devaneio

Recruta de mim sempre fui
Sem nenhum feixe, mas banhado de laços
Percebido por mim
Um devaneio

Parei para contemplar a Lua ao dia
A noite, ela me chama, assim como as estrelas
Pra quem tanto falo
De quem tanto preciso?

E tudo o que for querer, passe
Mas passeando por meus devaneios
Que os meus poemas não sejam descobertos
Dos meus olhos, vistos nem com um espelho

Gasto, linhas de desprazer
Antes Lua da noite, no dia, agora
Sem rima, nexo, sexo, textualizo
Perplexo.