Infância

onde vivem as joaninhas?
hoje me deparei como uma
e minha felicidade infantil
me abarrota
com a surpresa
de um velho para outras
e novo pra mim

[na moto
corrida
nada, via]

corria, quando menino
feridas
nas quedas,
feridas coloridas
recheadas de descoberta
e logo depois
a marca, a prova
de que tentei voar.

A curiosidade era,
por novas feridas
fruto de corridas desenfreadas
quedas de bicicleta

hoje tenho moto
mas sem saudade das quedas
hoje
mais mortíferas

as quedas da infância,
não.
eram um aviso de que
outras quedas viriam
e não havia fuga
só mais corridas

onde estão essas marcas?
por que as joaninhas fugiam de mim?
e os soldadinhos?
eram meus preferidos

hoje eu vi
senti
uma joaninha pousar,
morar no meu braço
e desaparecer.

peleja

por aqui
as ondas batem
e o cais
permanece firme
até a próxima enseada

sou devagar,
no mundo
por vezes
cru
era naquele corpo que queria estar
em cima, por cima
daquela cor
amarelo, manga,
maracujá
maçã
círculos viciosos de euforia
mil a coração
pele amarela
banana maçã
gosto de mamão
e nos teus poucos cabelos
deslizar em afago
triste,
feliz,
passado.

I

tinha cabelos longos
cortou
depois de uma longa distância
o corte da saudade, foi feito
e cá estou eu
ansioso
pelo beijo,
em cada esquina do céu
eclipsado;
no teor dos dedos postiços,
nos mastros levantados da saudade
rios fugidios, Calypso em minhas festas
abraço desesperado
corrente esmagada,
pelo nosso beijo
com convicção
de beijo.


Exílio

É pra solidão
todas as cartas que escrevo
todo o vazio eloquente que encomendo
às noites sem internet

é pra mim que prescrevo
doses de nenhuma procura
doses de nenhum encontro
o silêncio

quero muros aqui e acolá
das paixonites exigentes
mas aprendi
com demora
a não sabotar meus silêncios

Eu não ligo

é para o amor que escrevo
o meu,
pra ter amor por outrem
tenho que estar inteiro
hoje
sou pó, que seca
depois de ser rio
Ou poeira cósmica
na lama de alguém.

Tricô

Quando não poder ver o tempo me escutar
quando o inverno em meus cobertores invadir,

tudo

meu vazio
vai esquentar o vácuo, a solidão.
o desamor
quebrará em 12 pedaços
um pra cada desatino

e/

pra cada destino
uma ferida cálida
coberta
com um cobertor grosso

ao astro luminoso
que iluminará as palavras
que não serão ditas,
Sentidas,
cozidas pela madrugada

ou

apadrinhadas pela luz desligada
fugidia
pela brecha da janela
cortinada pelo uivo do vento,

nada

Há de haver
Lá Fora.







Chuva

Eu me precipitei
as chuvas precipitam
as lágrimas,
caem
Com certeza

Moldavam o meu amor
na terra
de tanto cheiro,
ficou molhada

Eu me precipitei
As chuvas precipitavam,
as lágrimas,
caem
com certezas

lembrando a plantação do renascer
rizomaticamente
colorida

Fios

Nos meus braços estão as teias
cobertas e preenchidas de
Vazio

Nos meus olhos estão as veias
cobertas por um cobertor
Fino

Disparate velho
à navegar tristonhamente no mundo
descobri que
na loucura do instante
solidifiquei-me, desfigurei-me
a cada hora que canta o galo
na madrugada

Esquartejei meus poemas
Soletrei cada parte do meu corpo
Vingando-me
Da minha ignóbil natureza matutina
E todos os dias sustento
um vazio eloquente

Nos meus braços não estão:
os dias, as noites
mas a madrugada, sim
tosse todos os pedaços de espelho
em meu rosto

por isso desfiguro-me.
Apanho alguns cacos
Providencio cola,
Mas só

Da gota serena

Se o dia vem
ou vai embora
o tempo por certo navegará

nas ondas das memórias
do chá que deixei
por tomar

Se as ondas sonoras
vão para o rio mais próximo
ou para a poça que quis plantar

Foram poucas as chuvas
ainda alegres
a me regaram nesse lugar

Haverá cor
desfigurada no solo
húmus na alma

indo à fronteira da próxima cidade
linhas que gotejam, tortas
mapa que plantei,

num círculo profundo
eu ainda menino no mundo
pra quê ser rei?

se a estrada é longa
logo,
sou avião de papel
um dia
haverá novidade avuando
e a estrada me ligando
naquilo que sou
com o que serei